PANORAMA
Era os idos dos anos 1970. Chegava eu em Belo Horizonte. Fui estudar num colégio público. Tinha sido admitido lá por concurso público. Onde, para entrar era necessário só estudar e passar nas provas do concurso. Lá conheci alguns alunos. E nós, eu e eles, nos metemos numa pequena aventura. Que foi a fundação de um jornalzinho mimeografado. Eu dei o título do jornal: TRANSEUNTE. E a publicação só durou o número único em que o publicamos. Circulava então a ideia de que jornais como aquele tinha mesmo a duração de pouco tempo. E lendo isso, eu me senti um pequeno herói da literatura. O país vivia então uma implicância com a literatura que vinha do alto. Eu fui cuidar então da minha vida. Me empreguei num banco e acabei adoecendo. Sendo que o meu mal era já de origem genética. Hoje, mais esclarecido sobre mim, ainda sobrevivo e sonho. Não sou um derrotado. Moro vem, vivo bem. Se bem que convivendo com poucos.
E tenho um lema: o pouco que me satisfaz. Assim o peso da existência se torna suportável. Sem maiores sofrimentos. Para terem ideia de mim, sou católico. De batismo. Estava ali rezando com os padres que aparecem na televisão. Daqui a pouco volto lá, para rezar o terço. Espero que sim. Sabem porque eu disse que sobrevivo sem maiores sofrimentos. Porque o jugo me é leve. Não levarei comigo pecados cabeludos. Daqueles que uma consciência que se autoexamina não sobreviveria suavemente. Eu não, sei que não sou um gênio. Esse epíteto me foi dado por uma mulher que vivia insatisfeita. Insatisfeita de si, dos seus. E que a duras penas fez com que o seu filho estudasse.
Mas chega de falar dos outros. Uma coisa que observei na vida, foi é isso mesmo. As pessoas no afã de dizer que conhecem os outros, fazem só a imagem do outro. Deviam se mirar no espelho. E ver a cicatriz mais marcante de todas. O próprio umbigo. E se contar a própria estória. E aí já estariam a caminho de saberem quem são. Não sei se assim agindo elas melhorariam o mundo em que vivemos. Talvez sim. E vivendo num mundo como o atual, onde quem sabe escrever e descrever pode já fazê-lo. E correria o perigo apenas de ser lido. Para uns ser lido significa a fama. Para outros significa dizer "olha o que senti com isso ou com aquilo". E quem lê interpreta ou não, tira uma conclusão ou não, ou diz apenas: "quanta bobagem!".
Ora deixe que falem, deixe que digam, e um teatrólogo meu conterrâneo escreveu: "falem de mim". E ele ficou famoso. Porque muitos querem é a fama. Mas a boa fama não faz mal a ninguém. Costuma ser até imitável. E o comportamento dos famosos, é já sabido, é muito imitado. Para quem vê certas coisas acontecendo com certos famosos, o melhor mesmo é a quietude do anomimato. E tenho dito.E que Deus nos proteja e abençoe.
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